24 de abril de 2011

ILHA DO MEDO (2010)


Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Emily Mortimer

Os principais trabalhos de Martin Scorsese são simplesmente magníficos porque nos apresentam uma enorme variedade de elementos de qualidade que agradam à esmagadora maioria dos espectadores. Ilha do Medo consegue se introduzir na perfeição nesse magnífico conjunto de trabalhos porque também se assume como uma excelente produção que nos oferece uma cativante e imprevisível história que é protagonizada por um talentoso elenco e dirigida por um icônico cineasta que raramente nos desilude.


Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) são enviados para o Hospital Psiquiátrico Ashecliffe na Ilha de Shutter, uma conhecida instituição psiquiátrica onde estão internados os mais perversos criminosos do país, com o intuito de investigar o misterioso desaparecimento de Rachel Solando, uma instável e perigosa assassina que conseguiu escapar desta instituição psiquiátrica sem deixar qualquer espécie de vestígio, exceção feita para uma pequena mensagem indecifrável. Os diversos funcionários do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe não parecem empenhados em cooperar com a investigação e um dos principais entraves aos avanços da mesma é o Dr. Cawley (Ben Kingsley), um misterioso psiquiatra que é o principal responsável pela aplicação dos tratamentos psicológicos e psiquiátricos que se fazem na instituição. A investigação é ainda mais atrasada com a chegada de um furacão que acaba isolando os agentes da civilização, uma situação que os deixa rodeados por um ambiente psicótico e pacientes perigosos. À medida que enfrentam dúvidas e desvendam segredos, os agentes percebem que as suas vidas estão em risco e que podem não conseguir sair vivos desta ilha maldita.


O imaginativo argumento de Ilha do Medo é baseado na obra homônima de Dennis Lehane e consegue nos oferecer uma fantástica história que em nenhum momento se torna cansativa ou aborrecida, muito pelo contrário, mantém os espectadores concentrados e agarrados ao seu imprevisível desenvolvimento que nos apresenta inúmeras surpresas e reviravoltas extremamente penetrantes. O enfoque inicial da história é a exaustiva investigação policial que é conduzida pelos agentes federais sobre o desaparecimento da perigosa condenada e posteriormente sobre a continua sucessão de misteriosos acontecimentos na instituição psiquiátrica, no entanto, à medida que nos aproximamos da conclusão, a investigação é praticamente esquecida e a exploração da enigmática história individual do protagonista passa a ser o enfoque principal da narrativa que também explora as traumáticas conseqüências que as deturpações psicológicas têm no comportamento de um individuo.


O protagonista é assombrado por um passado traumático que o interliga com a instituição que investiga, assim se explicam as inúmeras hipóteses teóricas que nos apresenta e que nos deixam na dúvida sobre o que é verdade e o que é uma invenção, assim sendo, nunca temos certezas absolutas ou irrefutáveis sobre quem é o vilão ou quem é o herói da história porque o próprio personagem principal nos apresenta um extenso histórico de violência. Ao fantástico ambiente de suspeição e de incerteza que é levantado e continuado pelo argumento, ambiente esse que é constantemente alimentado por cativantes reviravoltas e criativas suposições, também se juntam as abordagens intelectuais sobre as conseqüências psicológicas que os traumas têm na estabilidade mental dos indivíduos, uma abordagem que é especialmente efetuada nos últimos momentos de Ilha do Medo. A dúvida e a paranóia dominam a história desta produção que nos oferece uma conclusão que é bastante lógica mas que certamente surpreenderá os espectadores.


O trabalho diretivo de Martin Scorsese é simplesmente fenomenal. O icônico cineasta exteriorizou na perfeição uma intrigante história sem nunca esquecer as vertentes técnicas, ou seja, Martin Scorsese explorou habilmente o argumento mas sempre se preocupou com os pormenores técnicos que acompanham essa exploração exaustiva da história, como por exemplo, as seqüências ilusórias do protagonista são extremamente significativas e os cenários obscuros e decadentes alimentam e acompanham a incerteza da narrativa e o espírito da instituição. O cineasta também demonstrou uma atenção especial com a capacidade intelectual do espectador ao não explicitar a história de uma forma concreta e conclusiva, obrigando o espectador a procurar as respostas por ele próprio. Os magníficos elementos fotográficos e as fantásticas sonoridades de Ilha do Medo também contribuíram para o excelente resultado final. O elenco é qualitativamente liderado pela excelente performance de Leonardo DiCaprio, que assume o protagonismo sem grandes problemas e oferece à sua complexa personagem todos os elementos que ela necessita para ser convincente. Mark Ruffalo e Ben Kingsley abrilhantam o elenco secundário com excelentes interpretações individuais mas é o último que arranca os maiores elogios porque tanto nos convence como vilão ou como herói.


O suspense que é criado e desenvolvido em Ilha do Medo não é passageiro e acompanha a história até ao seu último instante, uma característica que é digna das melhores produções do gênero porque é precisamente isso que se exige de um thriller. Martin Scorsese voltou a brilhar num gênero difícil e através de uma narrativa complicada. Ilha do Medo não é perfeito mas não destoará na espetacular filmografia de Martin Scorsese.




[PARA REVER] BASTARDOS INGLÓRIOS (2009)


Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Brad Pitt, Eli Roth, Diane Kruger, Mike Meyers, Michael Fassbender

Bastardos Inglórios é o que os americanos tanto gostam de chamar Instant Classic. Tarantino consegue fazer tudo aquilo que quer e gosta, sem cedências, e simultaneamente supera as expectativas dos seus fãs por esse mundo fora. Para qualquer cinéfilo que se preze, mesmo não sendo fã da sua particular visão cinematográfica, este é inegavelmente um grande filme e um dos melhores de Tarantino, que dá um passo adiante na estética singular comum a toda a sua filmografia.


Nesta espécie de conto/sonho de qualquer judeu, que sintomaticamente começa com um "Once upon a time", marcando a vertente absolutamente ficcional de toda a trama, Tarantino dá o ponto para o que todos os filmes de Silly Season podiam e deviam ser: histórias bem contadas e estruturadas, acompanhadas de boas interpretações e melhores textos e com clássicos musicais enquadrando as melhores cenas (porque há uma mão cheia delas, dignas de constar na história do cinema). A mistura entre filme de guerra spaguetti, comédia, ação e drama dá um resultado perfeito, cheio de entretenimento, puro e duro, como a época pede e todos nós gostamos.


Tarantino filma na Alemanha com um elenco majoritariamente europeu, verdadeiro desfile de estrelas do cinema alemão: a bela e talentosa Diane Kruger, Michael Fassbender, Christoph Waltz (ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante e o melhor de todo o filme como Col. Hans Landa – o Caçador de Judeus), Daniel Brühl e alguns bons atores franceses como Mélanie Laurent interpretando a inesquecível Shosanna Dreyfuss.


O filme cruza duas histórias paralelas distribuídas por cinco capítulos, mantendo a já tradicional estrutura de Tarantino. Começamos na França ocupada do início da década de 40 do século passado, pela história de Shosanna, judia, única sobrevivente do brutal massacre de toda a sua família, que, a seu tempo, terá a oportunidade de uma vida para vingar. Em seguida conhecemos os infames Bastardos, um grupo que, na boa tradição de Os Doze Condenados, tem como única missão matar nazis, com o bônus de vingarem o massacre a que o seu povo foi sujeito, visto que têm em comum o fato de serem judeus. A vingança que levam a cabo espalha o medo entre os oficiais alemães, chegando aos ouvidos do próprio Führer, que se desespera diante de tamanha ousadia.


As típicas cenas de diálogo sem cortes estão presentes, quase sempre em plano contínuo, garantindo o realismo e assegurando o suspense em momentos-chave cujo desenlace influencia todo o futuro das personagens. A violência é gráfica e explícita, sem disfarces nem subterfúgios. Carregando o simbolismo da redenção pela vingança (que na realidade nunca chegou a acontecer) que todas as personagens principais buscam e, em última instância, lhes dá motivação e alento para se manterem vivos, um objetivo a que entregam a sua existência e que levam às derradeiras conseqüências, por todos meios ao seu alcance, por mais inortodoxos que possam parecer. A seqüência que dá base a todo o filme acontece no cinema de que é proprietária Shosanna, levando ao clímax todas as premissas semeadas ao longo da trama, com imagens poderosas e que, apesar de todo o espetáculo e inevitável choque e espanto, nos deixam um sorriso nos lábios.


Tarantino conclui o filme com chave de ouro e deixa o seu nome gravado na história do cinema por, mais uma vez, provar que o cinema, mantendo-se pop, pode simultaneamente atrair público às salas e ser tão Cult como o melhor da 7ª arte européia. That’s Entertainment!




16 de abril de 2011

O GOLPISTA DO ANO (2009)



Direção Glenn Ficarra e John Requa
Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro


Há muitas maneiras de contar uma história e há histórias que merecem ser contadas seja de que forma for. É o caso da vida de Steven Russell, um golpista homossexual que cometeu fraudes por todos os Estados Unidos, tendo sido várias vezes preso e que conseguiu fugir das formas mais inusitadas. Esta história é verídica e Steven Russell, aqui interpretado por Jim Carrey, ainda é vivo, assim como o seu parceiro, Phillip Morris (Ewan McGregor).



Não sendo de todo um apreciador de Jim Carrey, confesso que este filme me surpreendeu bastante positivamente, devido a dois fatores habilmente conciliados: a versatilidade de Jim Carrey, que interpreta convincentemente todas as metamorfoses de tão singular personagem, desde o seu tempo de polícia - casado e pai de uma menina, até o sofisticado diretor financeiro, ou um doente terminal de AIDS, e ainda a capacidade de se narrar uma história muito interessante, mas profundamente trágica com tanto humor, conseguido sem recurso a banalidades. Sem qualquer pudor em caricaturizar o lado da homossexualidade aos olhos dos heterossexuais, esta é no fundo uma história de amor de um homem que se recusa a aceitar as limitações que a vida lhe impõe e com capacidade de subvertê-la de todas as formas. Steven Russel foi um artista da vida duramente punido durante o regime Bush num estranho e irônico exercício de valores.



Não se tratando certamente de uma obra marcante do cinema é talvez das narrativas mais interessantes que vi em filme nos últimos anos. Além do roteiro e das interpretações, poucos aspectos me parecem dignos de nota, mas a verdade é que o filme cumpre os seus objetivos, conta uma história bem contada e deixa-nos pensando sobre ela. Este filme foi apresentado no Festival de Cannes em 2009, assumindo claramente a sua intenção menos comercial.



18 de março de 2011

FIM DOS TEMPOS (2008)


 

Direção: M. Night Shyamalan 
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Betty Buckley

Fim dos Tempos é um trabalho do diretor M. Night Shyamalan, o criador de obras intrigantes e criativas como O Sexto Sentido (1999) ou Sinais (2002). No entanto, é diretor, também, de desastres cinematográficos como A Vila (2004) e A Dama na Água (2006), que fracassaram nas bilheteiras e, na opinião geral da crítica e dos fãs do diretor, apresentaram uma qualidade substancialmente inferior no argumento e na criação de suspense, um elemento chave na identidade de Shyamalan. Em 2008 nos surge Fim dos Tempos, um filme do mesmo gênero que as demais obras do realizador e que prometia voltar a elevar a qualidade de suas películas, no entanto, algo que não acontece. O filme apresenta um entretenimento de pouca qualidade, com pouca transcendência, o suspense vai diminuindo à medida que o filme se desenvolve dando lugar à previsibilidade e os atores principais também em nada beneficiam a obra, aparecendo muito limitados e apagados.


Fim dos Tempos tem uma premissa apocalíptica que se traduziu na perfeição nos espetaculares trailers do filme que foram sendo lançados. Nestes, foi notória a capacidade que Shyamalan tem em criar uma sensação de intriga, suspense e até medo no espectador, contudo essa sensação acompanha apenas os trailers e os momentos iniciais do filme, perdendo-se de forma incompreensível à medida que o enredo se desenvolve. O filme acompanha os momentos de pânico e ânsia que sucedem o aparecimento de uma neurotoxina na cidade de Nova York e que leva os seus habitantes a suicidarem-se em massa. A misteriosa toxina propaga-se por outras grandes cidades da costa leste norte-americana, fazendo inúmeras vítimas. Inicialmente pensa-se que se trata de um ataque terrorista, mas rapidamente essa idéia perde consistência, dando lugar a um cenário mais aterrador.

 
 
O argumento é o elemento chave para Shyamalan, é dele que depende o sucesso ou fracasso dos seus filmes. Ao contrário de A Vila ou Dama na Água, o argumento de Fim dos Tempos apresentava grandes potencialidades, derivando de uma idéia interessante que certamente poderia originar um filme com o mesmo nível de O Sexto Sentido. Contudo, não lhe foi dado a tal mística tão característica das obras do diretor. É certo que no início o suspense e a intriga são bem trabalhados, mas rapidamente esfumam-se dando lugar a um desenvolvimento previsível com diálogos de fraca qualidade recheados de clichês e até de algumas explicações pouco convincentes. A construção das personagens principais apresenta muitas deficiências, algo que surpreende visto que até as obras inferiores de Shyamalan cumpriam razoavelmente este aspecto. A personagem principal interpretada por Wahlberg não é capaz de induzir drama e intensidade à obra o que por sua vez afeta a construção e desempenho das personagens principais restantes, que aparecem fortemente ligadas a ele. Não conseguimos nos ligar a nenhuma das personagens, não conseguimos nos preocupar com elas por maior desespero que enfrentem e se não nos preocupamos não vibramos intensamente com os acontecimentos retratados. Entramos, portanto, num estado de apatia emocional que nos faz ver o filme como uma obra sem espírito e emoção, algo de indiferente que não entretêm nem distrai. O elenco também não ajuda a mudar este cenário, apresenta-nos um trabalho medíocre que não convence e que não ajuda a levantar a qualidade do filme.


Shyamalan é um cineasta que compreende muito bem as técnicas utilizadas pelo Mestre Hitchcock, técnicas essas que lhe serviram de inspiração para criar técnicas próprias, inovadoras e criativas, que utilizou em todos os seus filmes. Logo, não é de estranhar que o filme resulte de uma espécie de mistura entre Os Pássaros (1963) e Sinais, contudo com menos qualidade do que estas obras. Se esta complexa mistura tivesse resultado na perfeição, não duvido que Fim dos Tempos seria um dos melhores filmes de 2008. Infelizmente, a obra aparece muito longe da perfeição, completamente distante da qualidade das obras anteriores do cineasta. Pouco intrigante, demasiadamente artificial e pouco credível não consegue transmitir o medo/ânsia esperada ao espectador. A mensagem ambientalista, apesar de ser muito menos credível do que a de filmes como O Dia Depois de Amanhã (2004) não deixa de ser interessante, infelizmente é preciso muito mais que uma boa idéia original para fazer um bom filme.


TRAILER: