13 de novembro de 2011

TRAMA INTERNACIONAL (2009)


Diretor: Tom Tykwer
Elenco: Clive Owen, Naomi Watts, Ulrich Thomsen, Armin Mueller-Stahl

Este filme acompanha a luta internacional de Louis Salinger (Clive Owen) e Eleanor Whitman (Naomi Watts) contra o lobby associado a um banco que enriquece através do financiamento do tráfico de armas para diversos conflitos armados. Tom Tykwer deseja com esta obra mostrar a luta do indivíduo contra as grandes corporações que controlam os jogos econômicos e políticos a nível internacional e sublinhar que, apesar da inferioridade de um só homem perante organizações deste calibre, a sua atitude pode fazer toda a diferença. Considero, contudo, que este objetivo exigia uma densidade psicológica das personagens e dos diálogos entre elas que está longe de ser conseguida. A bem da verdade o filme centra-se essencialmente em perseguições, lutas e tiroteios à boa maneira americana. Por outro lado, os jogos políticos e econômicos ganham contornos bastante complexos para serem facilmente assimiláveis pelo espectador de um filme que à partida não exige grande reflexão.


Clive Owen está melhor na vertente física e exterior da sua personagem do que propriamente na vertente mais interior e sentimental. O agente Louis Salinger é um homem contra um sistema corrompido, um homem inconformado que põe em risco a sua própria carreira para fazer valer os seus valores. Naomi Watts constrói uma personagem credível, mas cujo papel, ainda que tenha algum protagonismo, consiste essencialmente no suporte da personagem interpretada por Owen. Trama Internacional é um razoável thriller político que nos proporciona um bom entretenimento e paisagens interessantes.


Da mensagem do filme fica a frustração de pessoas movidas por ideais ao perceberem a inevitabilidade de sucumbir a um destino que está fora de seu controle, como acontece com um dos antagonistas do herói do filme vivido pelo competente Armin Mueller-Stahl. Seu personagem, o General Wilhelm Wexler,  em um dos diálogos do filme fala a seguinte frase, que pode ser uma grande síncope da mensagem que o diretor Tom Tykwer  tenta passar com este filme: “às vezes um homem pode encontrar seu destino na estrada que ele escolheu tentando evitá-lo”.


Para tanto, o diretor faz uso de simbologias interessantes em toda narrativa. Descidas ao subterrâneo, subidas para pontos mais altos onde há um pouco mais de justiça, reflexos e imagens dentro de um museu em Nova York. Tudo evidenciando que, para assistir Trama Internacional, além de estar preparado para uma paulada emocional por toda tensão que ele consegue passar (sem canalhices meticulosamente montadas), precisa-se de um olhar demorado e atento para usufruir das suas entrelinhas.










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10 de novembro de 2011

MACGRUBER - CORRAM QUE O AGENTE VOLTOU (2010)


Direção: Jorma Taccone
Elenco: Will Forte, Kristen Wiig, Val Kilmer, Andy Mackenzie

Saturday Night Live (SNL) é inegavelmente um dos programas mais antigos e mais conhecidos do panorama televisivo norte-americano porque ao longo dos anos tem conseguido entreter o exigente público americano com inúmeros esquetes de qualidade que foram criados e protagonizados por algumas das maiores estrelas humorísticas da atualidade, como por exemplo, Will Ferrell, Tina Fey, Seth Meyers, Tracy Morgan, Mike Myers, Eddie Murphy, Bill Murray, Chris Rock, Adam Sandler, Rob Schneider ou Ben Stiller. Os esquetes mais famosos deste programa televisivo foram adaptados à grande tela, mas a esmagadora maioria dessas obras acabou se revelando um verdadeiro fracasso, Os Irmãos Cara de Pau (1980) e Quanto Mais Idiota Melhor (1992) são exceções à regra porque conseguiram arrancar algumas críticas positivas e arrecadar lucros significantes nas bilheteiras.


O mais recente esquete humorístico do Saturday Night Live a receber uma adaptação cinematográfica é MacGruber, um produto que até parodia com alguma qualidade as maiores séries de ação dos anos oitenta e noventa como Esquadrão Classe A ou MacGyver e os maiores sucessos cinematográficos das mesmas décadas e do mesmo gênero como Duro de Matar (1988) ou Rambo (1982). O grande protagonista desta história é MacGruber (Will Forte), um soldado condecorado e um verdadeiro herói norte-americano que se reformou após a trágica morte da sua noiva, no entanto, esta sua reforma é subitamente revogada pelo Governo dos Estados Unidos da América que lhe pede para travar os diabólicos planos do seu maior inimigo, Dieter von Cunth (Val Kilmer), que pretende utilizar uma nova e mortífera arma nuclear para destruir Washington D.C, uma pretensão que será contrariada por McGruber que está decidido a derrotar Dieter von Cunth e a salvar a sua pátria.

Os criadores de MacGruber, Jorma Taccone e Will Forte, criaram uma paródia muito diferente do recente Os Vampiros que se Mordam (2010) ou do clássico Todo Mundo em Pânico (2000) porque ao contrário destas produções extremamente medíocres, MacGruber utiliza os clichês das séries e dos filmes de ação das décadas de oitenta e noventa para criar uma história exagerada mas relativamente divertida que consegue captar a essência extravagante e irrealista desses produtos, assim sendo, não estamos perante uma paródia que se limita a recria sequências praticamente idênticas às das obras que ataca. O herói e o vilão desta história, MacGruber e Dieter von Cunth, são respectivamente uma mistura entre MacGyver e Rambo e entre Hans Gruber (Duro de Matar) e Coronel Decker (Esquadrão Classe A), ou seja, são duas personagens fortemente estereotipada que nos apresentam os principais clichês dos protagonistas (heróis e vilões) dos filmes e das séries de ação das últimas décadas. Os clichês não estão apenas presentes na construção das personagens porque também a própria narrativa está cheia de referências cinematográficas, umas sutis outras mais evidentes, que nos mostram como alguns dos maiores sucessos comerciais das últimas décadas são exagerados e relativamente ridículos. MacGruber é largamente dominado por sequências humorísticas, mas também é composto por algumas sequências de ação que, sem serem visualmente deslumbrantes ou tecnicamente exemplares, conseguem ilustrar a vertente mais dura e fantástica dos filmes de ação, uma vertente que é constantemente atacada pelo seu irrealismo e exagero.


O elenco é constituído por vários atores desconhecidos do público brasileiro como Will Forte ou Kristen Wiig, dois comediantes que interpretam respectivamente MacGruber e Vicki St. Elmo e que transitaram do esquete humorístico que esteve na base deste filme. As performances de Will e de Kristen são relativamente positivas mas não são excelente, no entanto, tendo em conta o gênero cinematográfico em questão não se poderia pedir muito mais destes atores e do restante do elenco, que tem em Val Kilmer a sua figura mais conhecida. MacGruber é um filme medíocre que, apesar de todas as suas falhas e irregularidade, consegue ser largamente superior aos mais recentes trabalhos norte-americanos deste gênero porque ao contrário dessas obras, MacGruber consegue oferecer ao espectador alguns momentos humorísticos de alguma qualidade.











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7 de novembro de 2011

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE: PT. 2 (2011)



Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman

2001 foi o ano que marcou a estreia de Harry Potter no mundo do cinema. 2011 é o ano que marca o seu encerramento. A tarefa era hercúlea. Terminar uma das mais bem-sucedidas sagas da História da Sétima Arte, com a dignidade e o valor que se exigia. Foi a David Yates que coube a responsabilidade de filmar o clímax explosivo das aventuras do “rapaz que sobreviveu”. E a verdade é que o diretor britânico não acusou a pressão, oferecendo ao espectador aquilo que ele mais esperava ver espelhado na grande tela: uma espantosa batalha final entre Potter e o seu arquiinimigo Lord Voldemort. Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 está longe de ser perfeito, diga-se de passagem. A narrativa é engolida pela batalha demasiadamente rápida e algumas cenas (especialmente as que marcam duelos entre personagens inimigas) não apresentam a carga emocional que seria desejável obter. Mas ainda assim, o filme de encerramento das aventuras de Potter cumpre aquilo que se exigia, despedindo-se destas personagens mágicas com todo o carinho e louvável solenidade.


Restam quatro Horcruxes (resquícios da alma de Voldemort) para Harry Potter (Daniel Radcliffe) encontrar e eliminar. Após se apoderarem do primeiro num assalto ao banco de Gringotts, Potter e os sempre fiéis Ron (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) dirigem-se para a escola de Hogwarts, pois chegam à conclusão de que é lá que se escondem os restantes três artefatos malignos. Mas Hogwarts não é mais aquele espaço mágico e encantado de outros tempos. Sob o comando do professor Severus Snape (fantástico Alan Rickman), a escola de magia e feitiçaria está transformada numa espécie de instituto militar, onde tudo é controlado ao rigor e com punho de aço. Razão pela qual o trio de heróis se depara com algumas dificuldades para levar a cabo a sua tarefa. Porém, com a ajuda dos membros da Ordem da Fênix, Potter e os amigos depressa reconquistam o controle da escola. Mas os festejos não duram muito tempo. Pois, dado o sinal de alarme, Lord Voldemort (Ralph Fiennes) aglomera as suas tropas à entrada de Hogwarts e exige que Potter se entregue de livre vontade, sob pena de invadir a escola e destruir tudo o que lhe aparecer à frente.


Assim se resume o fio principal da narrativa desta segunda parte. Uma parte que, tal como prometido, se foca quase exclusivamente na grande batalha final entre forças inimigas. Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (2010) distinguiu-se pelo seu lado mais recatado e melancólico, eliminando com eficácia toda a parte mais “teórica” e descritiva da história. E isso permitiu que este Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 fosse quase exclusivamente para a ação. De fato, este último capítulo cinematográfico da obra de J. K. Rowling acabou por ser diferente de todos os outros, a todos os níveis. Se a primeira parte se afirmara como uma espécie de road movie com feitiços, esta segunda parte marca a sua posição como filme de guerra puro e duro. Perante isto, é fácil compreender que estamos perante um filme que prima sobretudo pelos aspectos mais técnicos. O campo visual sempre foi um dos maiores trunfos destas películas. Mas esse mesmo lado visual nunca foi tão evidentemente avassalador como neste último capítulo. A fotografia de Eduardo Serra é maravilhosa, o design de produção de Stuart Craig é simplesmente assombroso, os efeitos visuais são do melhor que pode haver e a trilha-sonora de Alexandre Desplat se destaca um pouco mais do que no filme anterior, enchendo-nos a alma de emoção.


Mas se pensam que esta derradeira aventura de Potter é um simples festival de explosões, pensem de novo. Apesar de claramente focado para uma grande batalha final, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 não deixa de prestar atenção às suas personagens, continuando a ter um coração enorme e, acima de tudo, um grande respeito para com essas mesmas personagens. E é isso que acaba por distanciá-lo de outros blockbusters do gênero. Apesar de não terem tanto espaço para brilhar, as personagens (e os atores que as interpretam) continuam respirando ar puro, não se deixando afundar num rol de efeitos especiais que as apagariam por completo do mapa. De fato, não é a narrativa que parece ser abalroada pelos efeitos visuais. A grande batalha é que parece ser constantemente importunada pela narrativa.


Ao contrário do que acontecia nos outros filmes, tanto Emma Watson como Rupert Grint são relegados para segundo plano que, ao brilhantismo das suas representações, não diz respeito. Este capítulo final é inteiramente de Radcliffe e do seu Potter. Aqui, Potter encontra-se ousado e destemido, como nunca antes o vimos. E quem beneficia deste lado mais negro da personagem é, claramente, o ator que a interpreta. De resto, outros dois atores (estes bem mais conceituados e de créditos firmados) tomam conta do filme por completo: Alan Rickman e, claro, Ralph Fiennes. Rickman despede-se da personagem de Snape da forma mais digna e comovente possível. E Fiennes, como sempre, empresta a Voldemort doses elevadíssimas de deliciosa crueldade e arrogância.


Numa obra com tantos aspectos positivos, os pontos negativos que mais saltam à vista prendem-se com algumas sequências de ação feitas por encomenda e momentos dramáticos francamente desaproveitados. Principalmente quem já leu os livros sentirá que falta qualquer coisa a esta adaptação cinematográfica. Alguns dos momentos mais emotivos (como a morte de personagens importantes) acabam passando quase despercebidos e alguns dos duelos entre protagonistas (como o protagonizado por Helena Bonham Carter e Julie Walters) parecem ser despachados mais por obrigação narrativa do que por convicção de que aquela cena é fundamental para o sucesso da obra integral. E estes são alguns dos pecados que o diretor David Yates já cometeu no passado. De fato, Yates demonstra possuir algum traquejo, competência e criatividade. Mas não podemos deixar de pensar naquilo que um diretor como Guillermo del Toro (só para dar um exemplo) faria com este mesmo material. E um filme como Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 merecia um diretor desse calibre.


De qualquer forma, é justo dizer que estamos perante uma boa obra. Uma obra emocionante, visualmente espetacular e, acima de tudo, equilibrada. Não é a melhor das oito que compuseram a saga. Mas é bem capaz de ficar num honrado terceiro ou quarto lugar. Quem não leu os livros dificilmente terá algo de negativo a apontar. Quem os leu saiu da sala com a sensação de que poderia ter sido feito mais qualquer coisinha. O que não deixa de significar uma despedida em grande de Harry James Potter.










Harry Potter e a Pedra Filosofal  and the Sorcerer's Stone  e a Câmara Secreta  and the Chamber of Secrets  e o Cálice de Fogo  and the Goblet of Fire  e o Prisioneiro de Azkaban  and the Prisoner of Azkaban  e a Ordem da Fênix  and the Order of the Phoenix  e as Relíquias da Morte: Parte 1  and the Deathly Hallows: Part 1  e as Relíquias da Morte: Parte 2  and the Deathly Hallows: Part 2  e o Enigma do Príncipe  and the Half-Blood Prince Ralph Fiennes Lord Voldemort Michael Gambon Professor Albus Dumbledore Alan Rickman Professor Severus Snape Daniel Radcliffe Rupert Grint Ron Weasley Emma Watson Hermione Granger Evanna Lynch Luna Lovegood  Domhnall Gleeson Bill Weasley Clémence Poésy Fleur Delacour  Warwick Davis Griphook Professor Filius Flitwick John Hurt Ollivander Helena Bonham Carter Bellatrix Lestrange Aventura Drama Fantasia | Mistério filme movie David Yates  Steve Kloves J.K. Rowling

8 de maio de 2011

ATIVIDADE PARANORMAL (2009)


Direção: Oren Peli
Elenco: Katie Featherston, Micah Sloat

Estava bastante ansioso para ver este filme sensação de 2009. Com um baixo orçamento, quase impraticável nos dias de hoje em Hollywood, e filmado em 2007 na casa do próprio diretor, Atividade Paranormal assume-se como o grande sucesso daquele ano. Oren Peli pega numa velha e simples premissa dos clássicos filmes de terror – um jovem casal começa a ter as suas noites perturbadas por inexplicáveis fenômenos paranormais – e eleva-a a um estado que permeia o culto cinematográfico, tal foi o delírio em redor desta sua obra.


Verdade seja dita que Atividade Paranormal merece toda a atenção que lhe possamos dedicar. Estamos perante um filme assustador, perturbador e deveras inquietante. Uma boa aposta para os fãs do gênero fantástico e uma venerável adição para este tão desprezado e subestimado gênero. Contudo, o filme tanto promete que, a certa altura, acaba desiludindo. À medida que a história vai decorrendo, percebemos as limitações de um orçamento reduzido e compreendemos que esta obra poderia ser muito mais do que aquilo que é. Ninguém poderá dizer que Atividade Paranormal não é extremamente realista e assustador, mas o seu potencial não é totalmente explorado. Se estivéssemos falando dos jogos olímpicos, poderíamos dizer que Atividade Paranormal estava perto de levar o ouro para casa quando nos metros finais apenas ficou com o bronze. O que é uma pena.


Como já foi referido, a premissa é muito simples. Desde pequena, Katie (Featherston) é assombrada por um assustador e perturbador espírito. Após vários anos sem manifestação de incidentes paranormais, Katie pensa que a entidade finalmente lhe ofereceu descanso. Porém, ao mudar-se para uma nova casa com o seu namorado Micah (Sloat), Katie descobre que suas assombrações voltaram.


Não dá para deixar de dizer que Atividade Paranormal nos proporciona diversos momentos da mais pura tensão e do mais arrepiante suspense. Bem filmado e arquitetado, o filme tenta recorrer à essência do mais profundo terror para assustar o espectador. Longos momentos de silêncio levam-nos a recear cada frame da película. E como um bom filme de terror, aquilo que se esconde nas sombras acaba sendo o que mais nos perturba e incomoda. Atividade Paranormal é o parente mais próximo de A Bruxa de Blair (1999). O estilo é o mesmo e os fãs da bruxa do bosque americano reconhecerão a mesma técnica e o mesmo padrão de terror. Ainda assim, devo dizer que a obra de Oren Peli não consegue aceder ao patamar de obra-prima do terror. E isto porque a sensação de que algo lhe falta é simplesmente imperdoável. Se o filme trata de assombrações, então é justo dizer que ele também é assombrado pelo pecado de deixar o espectador à espera de algo que nunca vem a acontecer. Algo mais. Algo que salte das sombras e nos faça pular da cadeira.


Comparando rapidamente com o fabuloso REC (2007) ou o eterno O Exorcista (1973) (esses sim, verdadeiras obras-primas do cinema de terror), Atividade Paranormal mete medo e consegue ser assustador. Mas os outros dois são mais que isso; eles são aterradores e levam o espectador a desejar fechar os olhos e abandonar a sala. Algo que o filme de Peli infelizmente não consegue fazer. E como explicar isso? Muito simples. O filme poderia e deveria ser muito mais intenso, feroz e criativo. A certa altura, Atividade Paranormal torna-se previsível e as cenas terminam quando estão aumentando o seu interesse. Na maioria das cenas de intensidade, a imagem é cortada por um irritante fade out que decapita o ritmo do filme e dá início há tempos mortos que levam o espectador a desejar apenas uma coisa: que venha a próxima cena noturna. Assim é Atividade Paranormal, um daqueles filmes difíceis de criticar e/ou classificar. Por um lado assusta-nos e perturba-nos. Por outro lado, deixa-nos irritados por não ser capaz de levar o terror a um patamar superior. Algo lhe falta. Talvez uma cena final mais elaborada, aterradora e intensa. Talvez cenas mais arrepiantes, criativas e corajosas. Algo está faltando. Algo que não deixe o terror restringir-se a uma série de sons e ruídos de fundo. Graças à tentativa de simular um home vídeo, Atividade Paranormal é órfão de uma estrutura narrativa clássica. Não há princípio, meio e fim. E talvez seja essa a sua grande virtude, mas (ironicamente) também o seu grande pecado. Virtude porque o realismo dessa estrutura aprimora o efeito aterrador; pecado porque mata um possível clímax mais intenso e simplesmente infernal (algo a que REC atendeu com tanta mestria). Enfim, apesar de alguma desilusão da minha parte, não desanimem. Atividade Paranormal não deixa de ser um filme extremamente interessante, bastante assustador e que promete tirar-lhes o sono por algumas noites.







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24 de abril de 2011

ILHA DO MEDO (2010)


Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Emily Mortimer

Os principais trabalhos de Martin Scorsese são simplesmente magníficos porque nos apresentam uma enorme variedade de elementos de qualidade que agradam à esmagadora maioria dos espectadores. Ilha do Medo consegue se introduzir na perfeição nesse magnífico conjunto de trabalhos porque também se assume como uma excelente produção que nos oferece uma cativante e imprevisível história que é protagonizada por um talentoso elenco e dirigida por um icônico cineasta que raramente nos desilude.


Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) são enviados para o Hospital Psiquiátrico Ashecliffe na Ilha de Shutter, uma conhecida instituição psiquiátrica onde estão internados os mais perversos criminosos do país, com o intuito de investigar o misterioso desaparecimento de Rachel Solando, uma instável e perigosa assassina que conseguiu escapar desta instituição psiquiátrica sem deixar qualquer espécie de vestígio, exceção feita para uma pequena mensagem indecifrável. Os diversos funcionários do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe não parecem empenhados em cooperar com a investigação e um dos principais entraves aos avanços da mesma é o Dr. Cawley (Ben Kingsley), um misterioso psiquiatra que é o principal responsável pela aplicação dos tratamentos psicológicos e psiquiátricos que se fazem na instituição. A investigação é ainda mais atrasada com a chegada de um furacão que acaba isolando os agentes da civilização, uma situação que os deixa rodeados por um ambiente psicótico e pacientes perigosos. À medida que enfrentam dúvidas e desvendam segredos, os agentes percebem que as suas vidas estão em risco e que podem não conseguir sair vivos desta ilha maldita.


O imaginativo argumento de Ilha do Medo é baseado na obra homônima de Dennis Lehane e consegue nos oferecer uma fantástica história que em nenhum momento se torna cansativa ou aborrecida, muito pelo contrário, mantém os espectadores concentrados e agarrados ao seu imprevisível desenvolvimento que nos apresenta inúmeras surpresas e reviravoltas extremamente penetrantes. O enfoque inicial da história é a exaustiva investigação policial que é conduzida pelos agentes federais sobre o desaparecimento da perigosa condenada e posteriormente sobre a continua sucessão de misteriosos acontecimentos na instituição psiquiátrica, no entanto, à medida que nos aproximamos da conclusão, a investigação é praticamente esquecida e a exploração da enigmática história individual do protagonista passa a ser o enfoque principal da narrativa que também explora as traumáticas conseqüências que as deturpações psicológicas têm no comportamento de um individuo.


O protagonista é assombrado por um passado traumático que o interliga com a instituição que investiga, assim se explicam as inúmeras hipóteses teóricas que nos apresenta e que nos deixam na dúvida sobre o que é verdade e o que é uma invenção, assim sendo, nunca temos certezas absolutas ou irrefutáveis sobre quem é o vilão ou quem é o herói da história porque o próprio personagem principal nos apresenta um extenso histórico de violência. Ao fantástico ambiente de suspeição e de incerteza que é levantado e continuado pelo argumento, ambiente esse que é constantemente alimentado por cativantes reviravoltas e criativas suposições, também se juntam as abordagens intelectuais sobre as conseqüências psicológicas que os traumas têm na estabilidade mental dos indivíduos, uma abordagem que é especialmente efetuada nos últimos momentos de Ilha do Medo. A dúvida e a paranóia dominam a história desta produção que nos oferece uma conclusão que é bastante lógica mas que certamente surpreenderá os espectadores.


O trabalho diretivo de Martin Scorsese é simplesmente fenomenal. O icônico cineasta exteriorizou na perfeição uma intrigante história sem nunca esquecer as vertentes técnicas, ou seja, Martin Scorsese explorou habilmente o argumento mas sempre se preocupou com os pormenores técnicos que acompanham essa exploração exaustiva da história, como por exemplo, as seqüências ilusórias do protagonista são extremamente significativas e os cenários obscuros e decadentes alimentam e acompanham a incerteza da narrativa e o espírito da instituição. O cineasta também demonstrou uma atenção especial com a capacidade intelectual do espectador ao não explicitar a história de uma forma concreta e conclusiva, obrigando o espectador a procurar as respostas por ele próprio. Os magníficos elementos fotográficos e as fantásticas sonoridades de Ilha do Medo também contribuíram para o excelente resultado final. O elenco é qualitativamente liderado pela excelente performance de Leonardo DiCaprio, que assume o protagonismo sem grandes problemas e oferece à sua complexa personagem todos os elementos que ela necessita para ser convincente. Mark Ruffalo e Ben Kingsley abrilhantam o elenco secundário com excelentes interpretações individuais mas é o último que arranca os maiores elogios porque tanto nos convence como vilão ou como herói.


O suspense que é criado e desenvolvido em Ilha do Medo não é passageiro e acompanha a história até ao seu último instante, uma característica que é digna das melhores produções do gênero porque é precisamente isso que se exige de um thriller. Martin Scorsese voltou a brilhar num gênero difícil e através de uma narrativa complicada. Ilha do Medo não é perfeito mas não destoará na espetacular filmografia de Martin Scorsese.




[PARA REVER] BASTARDOS INGLÓRIOS (2009)


Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Brad Pitt, Eli Roth, Diane Kruger, Mike Meyers, Michael Fassbender

Bastardos Inglórios é o que os americanos tanto gostam de chamar Instant Classic. Tarantino consegue fazer tudo aquilo que quer e gosta, sem cedências, e simultaneamente supera as expectativas dos seus fãs por esse mundo fora. Para qualquer cinéfilo que se preze, mesmo não sendo fã da sua particular visão cinematográfica, este é inegavelmente um grande filme e um dos melhores de Tarantino, que dá um passo adiante na estética singular comum a toda a sua filmografia.


Nesta espécie de conto/sonho de qualquer judeu, que sintomaticamente começa com um "Once upon a time", marcando a vertente absolutamente ficcional de toda a trama, Tarantino dá o ponto para o que todos os filmes de Silly Season podiam e deviam ser: histórias bem contadas e estruturadas, acompanhadas de boas interpretações e melhores textos e com clássicos musicais enquadrando as melhores cenas (porque há uma mão cheia delas, dignas de constar na história do cinema). A mistura entre filme de guerra spaguetti, comédia, ação e drama dá um resultado perfeito, cheio de entretenimento, puro e duro, como a época pede e todos nós gostamos.


Tarantino filma na Alemanha com um elenco majoritariamente europeu, verdadeiro desfile de estrelas do cinema alemão: a bela e talentosa Diane Kruger, Michael Fassbender, Christoph Waltz (ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante e o melhor de todo o filme como Col. Hans Landa – o Caçador de Judeus), Daniel Brühl e alguns bons atores franceses como Mélanie Laurent interpretando a inesquecível Shosanna Dreyfuss.


O filme cruza duas histórias paralelas distribuídas por cinco capítulos, mantendo a já tradicional estrutura de Tarantino. Começamos na França ocupada do início da década de 40 do século passado, pela história de Shosanna, judia, única sobrevivente do brutal massacre de toda a sua família, que, a seu tempo, terá a oportunidade de uma vida para vingar. Em seguida conhecemos os infames Bastardos, um grupo que, na boa tradição de Os Doze Condenados, tem como única missão matar nazis, com o bônus de vingarem o massacre a que o seu povo foi sujeito, visto que têm em comum o fato de serem judeus. A vingança que levam a cabo espalha o medo entre os oficiais alemães, chegando aos ouvidos do próprio Führer, que se desespera diante de tamanha ousadia.


As típicas cenas de diálogo sem cortes estão presentes, quase sempre em plano contínuo, garantindo o realismo e assegurando o suspense em momentos-chave cujo desenlace influencia todo o futuro das personagens. A violência é gráfica e explícita, sem disfarces nem subterfúgios. Carregando o simbolismo da redenção pela vingança (que na realidade nunca chegou a acontecer) que todas as personagens principais buscam e, em última instância, lhes dá motivação e alento para se manterem vivos, um objetivo a que entregam a sua existência e que levam às derradeiras conseqüências, por todos meios ao seu alcance, por mais inortodoxos que possam parecer. A seqüência que dá base a todo o filme acontece no cinema de que é proprietária Shosanna, levando ao clímax todas as premissas semeadas ao longo da trama, com imagens poderosas e que, apesar de todo o espetáculo e inevitável choque e espanto, nos deixam um sorriso nos lábios.


Tarantino conclui o filme com chave de ouro e deixa o seu nome gravado na história do cinema por, mais uma vez, provar que o cinema, mantendo-se pop, pode simultaneamente atrair público às salas e ser tão Cult como o melhor da 7ª arte européia. That’s Entertainment!




16 de abril de 2011

O GOLPISTA DO ANO (2009)



Direção Glenn Ficarra e John Requa
Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro


Há muitas maneiras de contar uma história e há histórias que merecem ser contadas seja de que forma for. É o caso da vida de Steven Russell, um golpista homossexual que cometeu fraudes por todos os Estados Unidos, tendo sido várias vezes preso e que conseguiu fugir das formas mais inusitadas. Esta história é verídica e Steven Russell, aqui interpretado por Jim Carrey, ainda é vivo, assim como o seu parceiro, Phillip Morris (Ewan McGregor).



Não sendo de todo um apreciador de Jim Carrey, confesso que este filme me surpreendeu bastante positivamente, devido a dois fatores habilmente conciliados: a versatilidade de Jim Carrey, que interpreta convincentemente todas as metamorfoses de tão singular personagem, desde o seu tempo de polícia - casado e pai de uma menina, até o sofisticado diretor financeiro, ou um doente terminal de AIDS, e ainda a capacidade de se narrar uma história muito interessante, mas profundamente trágica com tanto humor, conseguido sem recurso a banalidades. Sem qualquer pudor em caricaturizar o lado da homossexualidade aos olhos dos heterossexuais, esta é no fundo uma história de amor de um homem que se recusa a aceitar as limitações que a vida lhe impõe e com capacidade de subvertê-la de todas as formas. Steven Russel foi um artista da vida duramente punido durante o regime Bush num estranho e irônico exercício de valores.



Não se tratando certamente de uma obra marcante do cinema é talvez das narrativas mais interessantes que vi em filme nos últimos anos. Além do roteiro e das interpretações, poucos aspectos me parecem dignos de nota, mas a verdade é que o filme cumpre os seus objetivos, conta uma história bem contada e deixa-nos pensando sobre ela. Este filme foi apresentado no Festival de Cannes em 2009, assumindo claramente a sua intenção menos comercial.